Meu Pai,

Foi no dia em que meu pai morreu. Era um dia triste, chuvoso e frio de janeiro. No pequeno quarto de hospital, eu o segurava em meus braços quando seus olhos se abriram de repente, num olhar de pavor que eu jamais tinha visto. Tive a certeza que o anjo da morte entrara no quarto. Então meu pai tombou para trás e eu coloquei sua cabeça no travesseiro suavemente. Fechei os seus olhos  disse à minha mãe que estava sentada ao lado da cama, rezando:

            “Está tudo acabado, mãe. O pai está morto”.

Ela me surpreendeu. Jamais saberei porque estas foram suas primeiras palavras para mim depois da morte de meu pai. Ela disse:

            “Ah, ele se orgulhava tanto de você. Ele o amava tanto!”

De alguma forma, soube pela minha própria reação que aquelas palavras tinham um significado muito especial para mim. Elas eram como um raio de luz repentino, como um pensamento assustador que eu tinha absorvido até então. Junto disto, havia uma pontada de dor, como se eu fosse conhecer meu pai melhor na morte do que em vida.

Mais tarde, enquanto o médico atestava a morte, encostei-me no canto mais afastado do quarto chorando baixinho. Uma enfermeira se aproximou e colocou um braço reconfortante à minha volta. Não pude falar através de minhas lágrimas. Gostaria de ter dito a ela:

“Não estou chorando porque meu pai está morto. Estou chorando porque meu pai nunca me disse que se orgulhava de mim. Ele nunca me disse que me amava. Certamente esperavam que eu soubesse dessas coisas. Esperavam que eu soubesse do papel importante que representava em sua vida e do espaço enorme que ocupava em seu coração, mas ele nunca me disse.”

Um abraço,

Dna. Marize