agua13 Arjen Hoekstra, criador do conceito de pegada hídrica e água virtual, esteve no Brasil para explicar para empresas e setores do governo como utilizar essa ideia que pode otimizar o uso deste precioso recurso naturalvian34

Em comemoração ao Dia Mundial da Água – 22/3 – reproduzimos esse importante artigo:

Você imagina quanta água é necessária para produzir uma simples xícara de café? Ou quanto dela é gasto para a produção de um quilo de carne bovina? E a roupa que está usando, sabe quanta água foi necessária para produzi-la? Quando você souber quanto de água é gasto para a produção de cada produto, em todas as etapas do processo – a chamada água virtual – , começará a ter uma noção do tamanho da sua pegada hídrica.

O nome pode parecer estranho, mas pegada hídrica é um indicador de quanta água doce é usada por um consumidor ou por uma fábrica, uma fazenda, enfim, um produtor. Na prática, significa um método para contabilizar a quantidade de água necessária para produzir bens e serviços e, também, dar-lhe visibilidade, ajudando a preservar a água doce do planeta.

O professor Arjen Hoekstra, da ONG Water Footprint Network, em parceria com WWF-Brasil, The Nature Conservancy e USP de São Carlos, realizou uma série de cursos e palestras com instituições-chave do país para explicar o conceito, mas ainda é novidade em todo mundo.

Segundo Hoekstra, grandes multinacionais – como Coca-Cola, Nestlé e Unilever, só para citar algumas – já estão aguaconsiderando a pegada hídrica em seus cálculos de produtividade. Mas os resultados efetivos não devem ser visíveis em menos de dez anos. “A pegada hídrica implica num longo processo, na criação de leis que podem levar de cinco a dez anos para ser implementadas. É preciso lembrar que começamos a falar em mudanças climáticas há apenas 20 anos. E só agora vemos a criação do Protocolo de Kyoto”, explicou, com voz pausada e serena, o especialista holandês, em encontro com a imprensa.

No Brasil já há empresas associadas ao Water Footprint Network (Rede da Pegada Hídrica), como Natura e Ambev. E não apenas isso. O governo brasileiro também mostrou interesse pela inovação e compareceram com representantes da ANA – Agência Nacional de Águas aos encontros que aconteceram na semana passada. “Houve uma sinalização positiva para incorporar a pegada hídrica como instrumento de medida para avaliar a qualidade, quantidade e disponibilidade de oferta de águas entre as regiões do país”, contou o biólogo Samuel Barreto, da WWF-Brasil. Para ele, o conceito aprimora a leitura sobre a gestão brasileira da água, seja por parte do governo, seja por parte das empresas. “Como todo mecanismo de eficiência, leva tempo para ser implementado, mas resulta por ser mais econômico”, afirmou.

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E O QUE ISTO TEM A VER COM VOCÊ?

E que diferença faz cada um de nós saber que, para produzir uma xícara de café, são gastos 140 litros de água, desde o plantio até a produção da bebida? Ou que um quilo de carne bovina consome 15,5 mil litros desse precioso líquido? A resposta está na possibilidade de se fazer escolhas mais conscientes e responsáveis.

A pegada hídrica de um consumidor brasileiro, segundo os cálculos do professor Hoekstra, é de 3.780 litros por dia, dos quais apenas 5% são consumidos dentro de casa em atividades cotidianas como higiene, limpeza e alimentação. Os outros 95% correspondem à chamada “pegada invisível”, presente em produtos industriais e agrícolas.

Para Ruth Mathews, diretora-executiva da Water Footprint Network a pegada hídrica é um recurso importante para se conhecer quanta água usamos, de onde vem e como cada um pode contribuir para que o próprio consumo de água seja sustentável.

Hoekstra lembra que, em 2050, seremos mais de 9 bilhões de pessoas no mundo e que, hoje, já consumimos 30% a mais do que os recursos naturais existentes permitem. E o especialista conclui: “Inverter essa curva de degradação tornou-se uma questão urgente!”.

Quando nos deparamos com informações do tipo:
– para se produzir um quilo de arroz, gastam-se 3 mil litros de água;
– um quilo de carne de boi, 15.500 litros de água;
– um litro de leite, mil litros de água e
– uma xícara de café, 140 litros de água

estamos diante da média global de consumo de água na cadeia produtiva dessas mercadorias. Mas esses dados podem agua2variar muito de um país para outro e mesmo entre produtores de locais não muito distantes, que utilizem tecnologias diferentes. A própria Water Footprint tem mapas que mostram a enorme variação da pegada de água em função do local onde um produto é fabricado. Antônio Felix Domingues, coordenador de comunicação e articulação da ANA – Agência Nacional das Águas, diz que, em certos países como o Brasil, nem sempre é fácil obter as informações das empresas sobre o uso da água nas cadeias de seus produtos e a média de consumo, às vezes, diz pouco na prática. “Os fabricantes estão em diferentes estágios tecnológicos, têm portes variados e muitas não gostam de entregar seus dados porque temem a concorrência ou sonegam impostos”. Para ele, os dados mais fiéis são os relacionados à irrigação, facilmente identificáveis por satélite.

Felix ainda lembra que os processos produtivos variam muito de um país para o outro. “O pasto para o boi, no Brasil, geralmente não é irrigado, ao contrário do criado no exterior. Nós conseguimos duas safras de milho sem irrigação, enquanto a França só produz uma e irrigada”. Ainda assim, ele reconhece a validade do conceito: “A pegada de água nos desperta a consciência de que tudo o que produzimos e adquirimos consome água e podemos usá-la de maneira mais responsável”.

COMO FAZER A CONTA
Ainda que se refiram apenas à média de consumo de água, os números elevados e tão diferentes entre um produto e outro chamam a atenção de leigos e despertam a curiosidade sobre como é feito o cálculo da pegada de água.

A Water Footprint tem um extenso manual que explica, por meio de fórmulas matemáticas complexas, o percurso da equipe de pesquisadores até chegarem aos valores finais. De maneira resumida e simplificada, a conta é feita assim:

vaquinha bebendo agua PEGADA DE ÁGUA DE UM ANIMAL: Somatória da água utilizada em sua alimentação, mais a água que ele bebe e a que é utilizada em serviços de higiene e cuidados.

A pegada de água de um quilo de bife de boi (15.500 litros) considera que, normalmente, o animal é abatido com três anos de vida e gera, aproximadamente, 200 kg de carne sem osso.

Ao longo da vida, o boi consome em torno de 1.300kg de grãos (entre trigo, aveia, cevada, milho, ervilha seca, farelo de soja e outros), 7.200 kg de pastagem, feno e silo, bebe 24 m³ de água e gasta outros 7 para sua manutenção.

Essa soma é dividida pelos 200 kg de carne produzidas pelo boi.
O que significa que para cada quilo de carne, o animal consome 6,5 kg de grãos e 36 kg de pastagem e afins. Para produzir esses alimentos, são utilizados 15.300 litros de água. Somados aos 155 litros de água que o boi bebe e consome em sua manutenção por quilo de carne produzido, chega-se à pegada de água do quilo de bife.

PEGADA DE ÁGUA DE UMA PLANTAÇÃO:
Uso de água (m³/hectare) dividido pela produtividade (toneladas/hectare).

A quantidade de água requerida por uma plantação pode ser estimada com base em dados climáticos, como temperatura do local e velocidade dos ventos, na quantidade de chuvas, na irrigação necessária, nas características do vegetal e no volume de água necessário para diluir os poluentes utilizados na plantação, para que os cursos d’água próximos se mantenham com a mesma qualidade exigida pela legislação local.

No cálculo da pegada de água da cevada, por exemplo, dividem-se os 190 bilhões de metros cúbico de água consumidos anualmente pela produção de mais de 146 mil toneladas de cevada e chega-se ao valor de 1.300 litros de água por quilo.

PEGADA DE UM PRODUTO DERIVADO DA PECUÁRIA OU DAS PLANTAÇÕES:
A pegada de água do produto de origem (a colheita ou o animal) é dividida entre seus produtos derivados.

Por exemplo, a pegada do arroz integral (produto processado) é igual à pegada do arroz em casca (produto de origem) dividida pela quantidade de arroz integral que se consegue obter por tonelada de arroz em casca processado. No caso da soja que se transforma tanto em óleo quanto em farinha, é importante saber qual a quantidade de soja é destinada para cada um dos dois produtos para que a pegada de água seja dividida de forma proporcional entre eles.

Com esse critério, a maior parte da pegada de água de um hambúrguer (2.400 litros) se refere à água proveniente da alimentação do boi (15.300 litros por quilo, ou 2.295 litros para a média de 150g de um hambúrguer). Assim como a pegada de água de 75 litros por 250 ml cerveja se deve, principalmente, à produção da cevada. images

A pegada de uma camiseta de algodão(2.700 litros), de aproximadamente 250 gramas, também vem, principalmente, da plantação de algodão: 45% está na irrigação, 41% na absorção de água da chuva o crescimento da plantação e apenas 14% na diluição dos resíduos de fertilizantes utilizados na safra e dos produtos químicos da indústria têxtil.

CONSUMO CONSCIENTE
A partir da informação sobre a pegada de água de cada produto, é possível fazer escolhas de consumo com mais consciência. Tomar café ou chá, por exemplo, gera impactos bem diferentes: enquanto são necessários 140 litros de água para produzir um xícara de café de 125 ml, uma xícara de chá com 250 ml demanda apenas 30 litros.
Exigir que os fabricantes informem a origem dos produtos que estão na prateleira do supermercado também pode nos ajudar a optar por aqueles que estejam abaixo de sua média global de pegada de água ou, pelo menos, que sejam produzidos em locais onde não há escassez de água.

Segundo o coordenador de comunicação e articulação da ANA, Antônio Felix Domingues, ainda não é praxe no Brasil medir a pegada de água dos produtos. Ele prefere apostar na cobrança de empresas pelo uso da água e na exigência de certos níveis tecnológicos no processo produtivo como medida de economia do recurso na cadeia dos bens produzidos. “Ainda desperdiçamos demais, mas é possível aumentar a produção gastando menos água”.

(Ivany Turíbio – Edição: Mônica Nunes)